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ACRJ entrevista Maria Elena Pereira Johannpeter

Construir um Rio Grande do Sul voluntário. Foi com essa visão que a administradora de empresas gaúcha, formada pela PUC-RS, Maria Elena Pereira Johannpeter fundou, em janeiro de 1997, a ONG Parceiros Voluntários, uma organização não-governamental, sem fins lucrativos e apartidária, que estimula, capta, capacita e encaminha voluntários às organizações sociais.



A iniciativa já conquistou mais de 300 mil voluntários em 13 anos de atuação, cujo trabalho beneficia mais de 1 milhão de pessoas nas 78 cidades que integram a Rede Parceiros Voluntários (www.parceirosvoluntarios.org.br). A Parceiros também criou o maior movimento de voluntariado jovem do Brasil, que envolveu, em 2008, 108 mil estudantes dos ensinos fundamental e médio de 379 escolas do Rio Grande do Sul.

Em 2008, Maria Elena Johannpeter lançou, juntamente com a escritora Lilian Dreyer, o livro O Quinto Poder - Consciência Social de uma Nação. A obra reúne análises e questionamentos de especialistas nacionais e internacionais sobre o Terceiro Setor, a atuação da sociedade civil organizada e o voluntariado, como o professor norte-americano Lester Salamon, um dos pioneiros do Terceiro Setor no planeta e a queniana Wangari Maathai, ativista distinguida com o Prêmio Nobel da Paz.



Maria Elena integra instituições como a Schwab Foundation, da Suíça, o Conselho Deliberativo da Federasul, o Conselho de Cidadania da Federação das Indústrias do RS e o Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial da Federação das Indústrias do Estado do Paraná.



A presidente-executiva (Voluntária) da ONG Parceiros Voluntários, uma das principais lideranças da área social do País, falou à Revista do Empresário da ACRJ sobre o trabalho desenvolvido pela ONG e a importância do trabalho voluntário.



O que a motivou a fundar a ONG Parceiros Voluntários? Em que valores está baseado o trabalho da Parceiros Voluntários?



ME - Sempre fui muito inquieta a respeito de me envolver com o outro, me envolver com o social, trabalhar para transformar realidades. Cresci vendo minha mãe agir efetivamente, não somente discursando. Mas a grande oportunidade de colocar em prática o que eu acreditava veio em 1996, quando o então presidente da Federasul (Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul), Mauro Knijnik, me convidou para assumir a diretoria do Departamento de Desenvolvimento Social da entidade. Como já atuava como conselheira de algumas organizações sociais e tinha pesquisado muito, no Brasil e no exterior, exemplos de participação de pessoas em suas comunidades - sabendo como o brasileiro é solidário por natureza - percebi que poderíamos passar de uma cultura paternalista para uma cultura mais participativa. Ao fundar a ONG Parceiros Voluntários foi essa proposta que fizemos à comunidade gaúcha.



O trabalho da ONG Parceiros Voluntários está baseado em sua missão, que é promover, ampliar e qualificar o atendimento às demandas sociais pelo trabalho voluntário, visando à melhoria da qualidade de vida no Rio Grande do Sul. Dentre os nossos valores, colocamos que toda pessoa é solidária e, portanto, um voluntário em potencial; a filantropia e o exercício da cidadania, pela prática do voluntariado, são indispensáveis para a transformação da realidade social; e, por fim, que o desenvolvimento sustentado é alcançado pela interação entre os sistemas econômico, ambiental e social.



Há perspectivas de estender esse trabalho a outros estados, como o Rio de Janeiro?



ME - Temos bases conceituais muito fortes e um largo trabalho em todo o Rio Grande do Sul. Essa experiência é que alavanca a nossa participação em outros estados, sempre por intermédio de parcerias locais como, por exemplo, o curso Gestão para a Sustentabilidade, Empreendedorismo e Redes Colaborativas, que estamos levando a instituições do Rio de Janeiro e do Amazonas em parceria com o Sebrae Nacional. Essa metodologia busca instrumentalizar dirigentes de Organizações da Sociedade Civil para uma gestão sustentável, desenvolvendo a liderança, o empreendedorismo e o estímulo à formação de redes colaborativas. É importante frisarmos que a Parceiros Voluntários se vê como uma potencializadora de causas sociais por dois eixos: encaminhando voluntários qualificados e profissionalizando, desenvolvendo lideranças e capacitando gerencialmente as Organizações. Outro grande desafio que temos é o curso "Educando para a Transparência", que é parte do projeto "Desenvolvimento de Princípios de Transparência e Prestação de Contas para Organizações Sociais". Esse projeto, realizado com o FUMIN/BID, tem o patrocínio da PETROBRAS e inúmeras parcerias com empresas, instituições e profissionais liberais. Quando estivermos com o projeto piloto concluído, a metodologia também deverá ser expandida para outros estados.



Como a srª avalia o desenvolvimento, o desempenho do Terceiro Setor no Brasil? Quais os maiores desafios para as pessoas e organizações que atuam nesta área?



ME - Como dizia Peter Drucker: "O resultado do Terceiro Setor é um ser humano melhor. As instituições sem fins lucrativos são agentes de mudança humana. Seu “produto” é um paciente curado, uma criança que aprende, um jovem que se transforma em um adulto com respeito próprio; isto é, toda uma vida transformada". Para se ter uma ideia de importância, é só analisarmos que, em 2007, o Terceiro Setor teve sua participação econômica reconhecida pelo IBGE, quando foi incluido na composição do cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o Centro de Estudos da Johns Hopkins University, dos Estados Unidos, o setor sem fins lucrativos no Brasil representa 5% do PIB nacional e assegura em torno de 3 milhões de empregos diretos.



Os números da Parceiros Voluntários também mostram um crescimento exponencial. De 2003 a 2009, passou de 31 mil para 300 mil voluntários cadastrados; o número de empresas cadastradas saltou de 850 para 2,5 mil; e as organizações da sociedade civil conveniadas aumentaram de 1 mil para 2,7 mil. Esse movimento todo de mobilização e articulação traz um benefício para aproximadamente 1 milhão e meio de pessoas.



O grande desafio de todos os países no século XXI é a formação do Capital Social nas comunidades. Eu concordo com o economista e sociólogo Bernardo Kliksberg que diz: "se os valores dominantes se concentram no individualismo, na indiferença frente ao destino do outro, na falta de responsabilidade coletiva, no desinteresse pelo bem-estar geral, na busca do consumismo (...), pode-se esperar que essas condutas debilitem seriamente o tecido social e conduzam a toda ordem de impactos regressivos". Assim, entendemos que uma das funções das organizações do Terceiro Setor é desenvolver formas democráticas de intervenção social, em que as pessoas sejam capazes de construir, de forma cooperativa, a ordem social em que querem viver. O sociólogo colombiano Bernardo Toro diz isso muito bem: "se a intervenção é assistencialista, cria a dependência; se é autoritária, cria a baixa auto-estima; se é clientelista, cria uma cultura de adesão; se é democrática, cria cidadania e autonomia".



A srª participou do Fórum Perspectivas para o Marco Legal do Terceiro Setor, no Rio de Janeiro, para discutir e avaliar os resultados deste trabalho, elaborado pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). Quais foram as principais constatações deste encontro?



ME
- Este é um trabalho que o GIFE vem construindo, a muitas mãos e cabeças, há alguns anos. Este documento estabelece os cinco temas que a rede GIFE identifica como prioritários no processo de aperfeiçoamento do marco legal do terceiro setor, que são: (1) liberdade de organização e funcionamento para as organizações da sociedade civil, (2) transparência e controle social (accountability), (3) imunidades e isenções tributárias, (4) incentivos fiscais para iniciativas de interesse público e (5) segurança jurídica, na qualidade de tema transversal.



Agora, com a publicação e propagação dessa obra "Perspectivas para o Marco Legal do Terceiro Setor" é que os debates levarão, certamente, a muito boas contribuições, visando um benefício organizacional para o Terceiro Setor. A pesquisa, que teve apoio das Fundações Ford e W. K. Kellogg, agora será distribuída a associados do GIFE e disponibilizada para download no site www.gife.org.br



A crise afetou de algum modo o investimento das empresas em projetos de Responsabilidade Social (RS) ?



ME
- Como ainda não está muito forte o entendimento de que o desenvolvimento sustentado está alicerçado, igualitariamente, em três pilares (econômico - social - ambiental), em qualquer crise a primeira rubrica a ser cortada, ou pelo menos diminuída, é a que se refere aos projetos sociais, ou melhor dizendo, aos projetos que dizem respeito ao envolvimento com a comunidade. É claro que teve reflexo, no final de 2008 e inicio de 2009, da crise econômica mundial. Porém, com os novos sinais de um retorno do crescimento das empresas, os investimentos estão sendo retomados, embora, ainda, com muita cautela.



Mas, como todas as circunstâncias nos trazem aprendizados, o cenário tornou-se positivo por um lado: as organizações se viram obrigadas a uma imediata profissionalização na sua gestão, seja no planejamento, na prestação de contas, na prospecção de novas maneiras de sustentabilidade, etc. Essa é uma das razões pelas quais a Parceiros Voluntários se preocupa em capacitar gerencialmente as instituições, para que crises não venham a acabar com projetos, que têm profundo significado em suas comunidades, pois o resultado final dessas instituições é medido em vidas transformadas.



Há uma grande expectativa em torno dos acordos que poderão ser firmados em Copenhague, em busca de uma comunidade global sustentável. Como a srª vê o papel do Brasil neste processo, em relação à mobilização da sociedade civil no sentido de influir e cobrar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável?



ME - É sonho de todos os países a solução ou a minimização de problemas sociais, como a fome, a educação para todos, a redução da mortalidade infantil, a não violência, o respeito ao meio ambiente, entre outros. O Brasil também está perseguindo esse sonho. Para isso, está desenvolvendo ações tanto pelos meios governamentais, quanto pela sociedade civil organizada. Segundo pesquisa do IBGE, divulgada em 2008, estavam registradas cerca de 338 mil fundações privadas e associações sem fins lucrativos, que empregavam 1 milhão e meio de pessoas em todo o País. São organizações dispostas a sair do discurso e a colocar a mão na massa. Essas mãos, geralmente, têm sido representadas por uma força de trabalho silenciosa, que crê na solidariedade, na promoção social e na cidadania. Essa força de trabalho não busca resultados apenas financeiros; busca, sim, a recompensa maior: projetos de vidas transformados.



Transformando o sonho em realidade, os Centros de Voluntariado de SP, RJ, SC e RS, com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), se uniram formando uma Rede de Colaboração. Hoje, através do trabalho voluntário, fomentado pela Rede Brasil Voluntário, esta realidade arregimenta um batalhão de 42 milhões de voluntários, que impulsionam projetos, que articulam soluções.



Todo indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos: todos são chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva. Penso que, para cobrarmos posições fora, temos que estar cumprindo o nosso papel internamente, e nisso os brasileiros estão dando o exemplo devido a essa forte mobilização e articulação aqui descrita.



A prática do voluntariado já integra o dia-a-dia das empresas brasileiras ou ainda é uma realidade distante? Como estimular o maior envolvimento das empresas em ações de RSE e a participação de seus colaboradores?



ME - Ainda há muito o que se fazer em relação ao envolvimento de todos os setores, mas saber que as lideranças empresariais já estão mudando a sua concepção sobre o trabalho voluntário, é meio caminho andado. A outra metade é uma questão de organização e mobilização. O estímulo que buscamos oferecer é por meio da metodologia da criação de comitês internos na empresa, de responsabilidade social. Hoje, as empresas já percebem que a responsabilidade social agrega valor à marca. Até por uma questão prática: para receberem certificações ou atuarem no mercado externo, as empresas precisam estar envolvidas com a comunidade. Outro fator importante é o clima que gera internamente quando os funcionários se juntam para apoiar projetos sociais: os interrelacionamentos ficam mais facilitados, as pessoas mais dispostas, a equipe mais unida e focada; melhora a capacidade na busca de soluções, enfim, cria ou fortalece um capital social interno na empresa. Não importa o tamanho da empresa: ela é feita por pessoas. Se elas estão felizes, os resultados são bem mais significativos.



A Parceiros Voluntários criou um dos maiores movimentos de voluntariado jovem do país, que envolve também pais e educadores. Como incentivar a criança, o jovem a ser voluntário? Como instituições de ensino, empresas e governos podem contribuir para isso?



ME - A ação se chama "Tribos nas Trilhas da Cidadania" e iniciou em 1999, por desafio de quatro jovens em sala de aula. Funciona da seguinte maneira: ao longo de todo o ano, os jovens do ensino médio, de escolas públicas ou privadas, desenvolvem ações em suas comunidades, escolhidas por eles mesmos, buscando atender a três "trilhas": Educação para a Paz, Meio Ambiente ou Cultura. A metodologia utilizada na ação Tribos nas Trilhas da Cidadania favorece a co-autoria dos jovens, o trabalho em grupo e o compartilhamento de experiências. Também cria condições para a reflexão e o desenvolvimento de habilidades e competências, qualificando e fortalecendo a atuação juvenil e promovendo capacitações de estudantes em liderança, empreendedorismo, voluntariado e cidadania.

Já tivemos ano com mais de 100 mil jovens mobilizados e, em 2009, tivemos mais de 80 mil estudantes, em 55 cidades no Rio Grande do Sul. Eles têm muito gás, querem viver o "hoje" e vibram quando recebem a oportunidade de agir. O que é preciso, na verdade, é direcionar essa energia pulsante para o bem dos outros e do próprio jovem. O apoio da escola, do educador e dos pais é fundamental. Eles podem estimular e orientar o jovem a trabalhar no projeto em áreas de maior afinidade, já pensando em seu futuro quando tiver que decidir por uma formação universitária, mas, principalmente, valorizar as conquistas dos jovens ao longo das atividades. Os pais podem, inclusive, participar de ações pontuais junto com os filhos. O que é comum de vermos e isso dá "uma liga" muito grande no interrelacionamento.



Os governos e as empresas precisam estar atentos aos jovens, pois eles não são o futuro: são o presente. E é necessário valorizá-los, formando-os como cidadãos conscientes de seus direitos e de suas responsabilidades. O grande biólogo e educador Humberto Maturana diz: "educar se constitui no processo em que a criança ou o adulto convive com o outro e, ao conviver com o outro, se transforma espontaneamente, de maneira que seu modo de viver se faz progressivamente mais congruente com o do outro no espaço de convivência".



A sra costuma destacar a importância da Responsabilidade Social Individual. Como ampliar a conscientização da sociedade para este conceito?



ME
- Esse é o conceito que vem embasando o trabalho da Parceiros Voluntários nesses 13 anos. A RSI - Responsabilidade Social Individual - nos diz que "trabalhar os valores internos faz despertar na pessoa o seu verdadeiro valor, o que a torna mais ativa e socialmente transformadora do mundo ao seu redor". Tudo inicia nesse pequeno núcleo chamado "eu". A RSI vem antes da RSE, da RSG (governamental) ou de qualquer outra. As pessoas não dispõem apenas de habilidades (capital humano), conhecimentos (capital intelectual), dinheiro (capital financeiro), prédios e maquinários (capital físico), possuem também elos de solidariedade, fraternidade, cooperação, reciprocidade e de confiança, que estabelece com outras pessoas. São esses elos a chave para resolver os problemas de desenvolvimento humano que enfrentamos na época atual, pois proporcionam ao indivíduo uma visão holística e sistêmica da realidade. Ele sente-se parte de um todo e trabalha para a integração e harmonização desse todo. Dá-lhe o verdadeiro sentido de ser cidadão. Uma das melhores formas de levar esse "contágio" adiante é, quem está fazendo e se sentindo feliz, propagar para seus familiares, amigos, colegas, enfim, fazendo uma grande corrente do bem.



Qual conselho ou alerta a sra daria aos empresários brasileiros?



ME
- Em 2006, a CNI (Confederação Brasileira da Indústria) publicou um Manual que constava: "a sustentabilidade - além de ser boa para a sociedade e para o meio ambiente - é também boa para os negócios. Significa oportunidades para as empresas construírem diferenciais competitivos, reduzirem custos e aprimorarem seus níveis de eficiência e desempenho". Eu complementaria ainda que, para os próximos anos, as empresas terão de mudar sua atenção para o seu pessoal interno, para satisfazer não apenas suas necessidades físicas mas também emocionais, mentais e espirituais. As pessoas desejarão trabalhar em empresas para onde possam levar seus mais elevados valores, que lhes dêem oportunidade de fazer uma diferença positiva no mundo e que as encorajem a tornarem-se tudo o que puderem ser. Quando as pessoas consideram seu trabalho significativo, alcançam seus mais profundos níveis de intuição e criatividade. Isso é bom para elas, é bom para a empresa e é muito bom para as comunidades.


por Andréa Mury

Revista do empresário da ACRJ

Dezembro de 2009 - no 1401 ano 68

 
 
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