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Ciência da Fé
Revista Versatille – agosto de 2008
A ciência está fazendo as pazes com Deus. Ou seria o inverso? No centro deste debate polêmico e defendendo uma nova ordem encontra-se o físico nuclear indiano Amit Goswami, Ph.D. em Física Quântica, é considerado um dos mais importantes nomes da atualidade, sobretudo por incentivar a construção de pontes entre a espiritualidade e as áreas exatas, o que ele chama de “nova ciência”. O interessante é que Amit foi um físico materialista dos 14 aos 45 anos de idade. Ao buscar respostas para os problemas de medição quântica, um ponto muito estudado e complexo da física, trocou de lado, ou, como gosta de dizer, “pensou fora da caixa”. Muitos amigos acharam que se tratava de uma crise de meia-idade, conta Amit. Mas na verdade, a percepção de uma consciência universal e maior, ou seja, um observador – algo muito próximo do conceito religioso de Deus –, fazia muito sentido para a investigação científica que ele desenvolvia. Autor de meia dúzia de livros, vários deles traduzidos para o português, também é conhecido por sua participação no filme “Quem somos nós?”, produção independente que fez sucesso nos cinemas e nas locadoras no Brasil e no mundo. Amit esteve no País para o “Seminário Internacional Pare Pense – Quem podemos ser?”, da ONG Parceiros Voluntários, quando concedeu esta entrevista exclusiva para a Versatille.
Que valores a nova ciência traz à tona?
Primeiramente, há movimentos descontínuos no universo para os quais não existem soluções lógicas ou matemáticas. E é falsa também a idéia de que os cientistas trabalham apenas com base na racionalidade matemática. A realidade é algo muito maior do que o tempo-espaço. Atualmente, nós estamos em um momento no qual precisamos modificar os valores reais da humanidade. E isso tem que começar com o nosso ponto de vista. Nossa capacidade de processar significados é única. Vários cientistas já comprovaram que os computadores, por mais evoluídos que sejam, não são nem serão capazes de processar significados. Em outras palavras, o cérebro humano processa, de forma quântica, as possibilidades, em vez de trabalhar diretamente, de maneira algorítmica, sem ambigüidades. Aliás, qual é o significado de nossas vidas? Essa é uma questão que persegue o homem. Penso que a Física Quântica mostra que a liberdade de escolha, à disposição de todos, dá significado a nossas vidas. E esta nova ciência, envolvida em um mundo interno e externo, no qual a subjetividade retorna à pauta, valida conceitos que dizem que algumas de nossas fantasias podem ser levadas a sério.
Deus era, de certo modo, um problema para os antigos cientistas e para os materialistas, que separaram a fé da ciência há mais de dois séculos. Você defende que Deus é a solução para a ciência hoje. Por quê?
Trata-se de uma mudança de visão materialista da ciência, a qual eu defendo. Deus é a solução para vários paradoxos, na verdade. A ciência não só pode como já está comprovando a existência de Deus, de uma consciência maior e elevada. Existem, hoje, teoria e dados experimentais, ambos a favor da existência de Deus. Considero um alívio para as pessoas e também uma esperança em termos de futuro, apesar de nossos dificílimos problemas como humanidade, muitos dos quais a velha ciência não conseguiu resolver. Acredito que a nova ciência, com Deus ao nosso lado, nos traz a confiança de que poderemos solucionar muitos entraves do homem e da sociedade.
O quanto o filme Quem somos nós? o ajudou a divulgar suas idéias para o mundo? As pessoas começaram a se interessar mais por Física Quântica?
Ninguém entendia muito bem o que era Física Quântica e o que ela estudava. E mais: as pessoas tinham dificuldade de pensar “fora da caixa”. A nova ciência explica-se com a existência de uma consciência de que é tudo, está em tudo e em todos. Falamos em uma nova consciência maior, que elimina os paradoxos da antiga ciência. Somos condicionados a pensar que os problemas ocorrem por uma determinada causa. Ninguém questiona esta dinâmica nem por que nosso sistema social funcional, pois tudo deve começar com problemas e causalidades. É importante dizer que sem reconhecer a nossa consciência individual e o valor da transformação nunca mudaremos a violência em nossa sociedade, por exemplo.
Você vem visitando o Brasil seguidamente. O que pensa a respeito do povo brasileiro?
Acho que o povo brasileiro é muito aberto. Vocês são mais emotivos e isso ajuda a fazer com que não fiquem amarrados a um único tipo de pensamento, porque sabem que a ciência que não é ampla não funciona. Por exemplo, os brasileiros entendem muito bem que o pensamento racional nunca poderá dar respostas a respeito de como as pessoas se sentem. Então, nesse sentido, o Brasil aceita mais a dimensão espiritual do mundo. E desde que meu trabalho conectou ciência e espiritualidade eu encontrei nos brasileiros, naturalmente, entusiasmo nesta nova ciência.
Qual é o problema da medição quântica que o levou até a nova ciência?
Há um consenso de que não existem soluções numéricas para o problema da medição quântica. A nova ciência, então, resolveu tais paradoxos. Em linhas bem simples e gerais, na Física Quântica, nós temos objetos e possibilidades. Mas se os objetos são possibilidades, o que converte possibilidades em eventos reais? Essa questão se torna paradoxal se você pensa na consciência como um fenômeno limitado ao cérebro de um único indivíduo. Vamos ver isso no modo materialista: partículas elementares de possibilidades fazem átomos possíveis, fazem moléculas possíveis, fazem células possíveis, fazem cérebros possíveis. Cérebros possíveis fazem consciências possíveis. Quando estas consciências possíveis olham para outras possibilidades de objetos e, de repente, em laboratório, descobrimos que tal objeto transformou-se em um “alvo” da realidade. As possibilidades das possibilidades nunca poderão nos dar realidade. Esse é o chamado paradoxo da medição quântica. Ele pode ser respondido facilmente se definirmos que os objetos não são feitos de um problema, como preferem os materialistas, mas sim de uma consciência, como quer a nova ciência ou a metafísica. Os problemas seriam possibilidades dessa consciência. E então a consciência poderia escolher entre essas possibilidades e a escolha manifestaria a realidade entre as possibilidades. Ou seja, não existem paradoxos se entendermos a existência desta consciência superior.
O que são os corpos sutis de que você tanto fala?
Existem corpos sutis e eles interagem entre sim e com o ambiente. Graças às ciências médicas, que, em parte, hoje aceitam muito bem a questão energética do corpo e a homeopatia, por exemplo, entendemos melhor os corpos sutis. Para os alopatas e materialistas, não existe explicação para um tratamento homeopático ser bem-sucedido. Eles dizem que é o efeito placebo. Mas esta não é a única resposta. Como pode a homeopatia curar realmente? Tudo que é alopático tem efeitos colaterais e, mesmo assim, a antiga ciência prefere condenar a homeopatia. Para a nova ciência há explicação, pois nosso corpo é formado por outros corpos sutis e isso não é apenas uma filosofia. É realidade porque funciona.
Todos nós vamos morrer um dia. Essa é uma certeza e um grande mistério para a humanidade. Mas você disse em Quem somos nós? que “as possibilidades podem viver além da matéria”. Se somos seres feitos de possibilidades, o que isso significa?
As possibilidades são um aspecto da consciência. A consciência é a razão do ser. Obviamente, não morre nunca, ela nunca purga. Se, em nossas vidas, nós tivermos um certo nível de limitação de nossas possibilidades, o que poderia vir a limitar a nossa personalidade, e se nós morrermos, a parte material do nosso corpo se esvai, cujas possibilidades realmente perecem. Mas o nosso modo de viver, o que nós desenvolvermos, nosso caráter que está conectado à forma com que lidamos com possibilidades não-materiais, essa “alma” pode viver, pode sobreviver mesmo após a morte do corpo material. Então, não há dúvidas de que faz sentido dizer que o corpo morre, é uma lei entrópica. Porém, é a nossa energia vital, é a nossa intuição. Esses corpos sutis se mantêm como possibilidades, e nós carregamos sobre a nossa personalidade ou alma mesmo após a finitude do material. Alguém, no futuro, pode, por exemplo, herdar meu caráter, meu modo de lidar com essas possibilidades, de processá-las. Essa pessoa poderá ser chamada de minha reencarnação. Então, não apenas a sobrevivência da alma é explicada, mas também a reencarnação, que é um conceito muito esotérico para o pensamento materialista, que o rejeita.
“Eu escolho, então, eu existo”. Esta é uma frase que você cita com freqüência. Se nós podemos escolher viver em um mundo melhor, por que a humanidade ainda não começou a mudar, a evoluir verdadeiramente?
Nós podemos começar a mudar eliminando as nossas escolhas condicionadas. A escolha está à disposição, assim como a liberdade, por meio de uma maior consciência, e não em um estado comum de consciência. Para acessar esta consciência aumentada é preciso criatividade. Nas nossas escolas, nós não ensinamos às crianças e estudantes a desenvolverem a criatividade porque, na ciência materialista, as soluções para o mundo são determinadas, exatas, dependem de causas e conseqüências. Nós temos que nos voltar ao espírito da criatividade, trazer de volta este ideal inventivo dos primeiros cientistas e resgatá-lo para os nossos jovens, der-lhes forças. Assim que eles, os nossos jovens, se tornarem criativos, eles podem realmente começar uma evolução. Novamente.
Você vem sendo criticado por sua posição, que conecta ciência e religião. De onde tira forças para seguir em frente em meio a tantas represálias?
Vejo que existe uma evolução de consciência que vem acontecendo, da consciência individual e da universal. E essa evolução demanda que não fiquemos atados a filosofias falsas por muito tempo. O materialismo externo é uma filosofia falsa. O bom pensar ou pensamento correto vai nos ajudar a responder aos novos tempos e, então, nós poderemos buscar uma vida melhor e mudar a nossa sociedade da maneira como temos de evoluir (como humanidade). Desde que exista uma evolução em andamento, existe uma certa pressão frente a alguns de nós. Aqueles que podem sentir isso, essa mudança, agem sobre essa inspiração e nesta direção. Então, você pode dizer, de certo modo, que o movimento da consciência universal, ou Deus, por si só, move a mim e faz com que eu siga nesta causa.
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