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“No faroeste mundial, o Brasil é o menino da porteira”, por João Meirelles Filho
O Brasil é o menino-da-porteira. O menino-da-porteira vai a Copenhague. A boiada passa, a fumaça aumenta e o Brasil nada faz. Quando tratamos de índices de desmatamento e queimadas, estamos apenas medindo a febre do doente, e nada mais. Não atacamos as causas.
Para Copenhague, o Brasil leva a fumaça e números incompreensíveis (porque não se baseiam na realidade). A causa do desmatamento da Amazônia e da contribuição do setor agrícola, que é a pecuária bovina extensiva, desmatadora e queimadora, não está na pauta. Não há propostas para contê-la. 
E este é o Brasil que quer adquirir o status de líder mundial. O menino da porteira. Não tem coragem de fechar a porteira da Amazônia e do que ainda resta do Cerrado e da Caatinga. Não quer sair de cima da porteira; prefere ficar, com seu estilingue, açoitando os passantes.
Neste Brasil-do-faz-de-conta, as contas são aquelas da sopa de pedras de Pedro Malazartes! Faz de conta que ninguém vê a boiada pastando no que era floresta. Faz de conta que as 80 milhões de cabeças de gado pastando sobre o que um dia foi floresta amazônica não afetam o nosso clima, o nosso bolso, o nosso brio.
Boiada é o que se pode chamar o aumento do rebanho bovino da Amazônia, de 1 milhão para 80 milhões de cabeças, em menos de quatro décadas. E isto com índices de produtividade próximos de 1 unidade animal por hectare! (Pior: mesmo que essa eficiência dobrasse, continuaria ineficiente, ou seja, seriam precisos 50 anos para sermos eficientes, e não dispomos deste tempo, o planeta não dispõe deste tempo.)
Menino, veja que a pecuária é o setor da porteira aberta, onde tudo pode. Pode desmatar. Pode ter gado ilegal – e na Amazônia tem pra lá de 5 milhões de bois piratas. Pode matar boi no mato – e 2/3 da carne bovina que a própria Amazônia consome é ilegal!
Fica fácil entender o desmatamento: quatro quintos estão associados à boiada. E a tendência é o rebanho alcançar pra lá de 200 milhões de cabeças em duas décadas.É o Brasil-grande!
O que o Brasil propõe em relação a isso? Nada! Pelo contrário, os governos locais são pró-pecuária, a legislação tributária é magnânima com o pecuarista, o BNDES e o Banco da Amazônia continuam a financiar a pecuária (e demonstram grande dificuldade em financiar o que é sustentável) e, no total, o poder público financiou R$ 34 bilhões à pecuária (Amigos da Terra, abril, 2009 – Os Donos do Gado).
O que não fica fácil é entender porque o assunto na está na mala do Brasil quando vai para Copenhague ou alhures. O Brasil pode definir o percentual que for, pode até transformar em lei, mas será sempre sem sentido, porque o Brasil está com a porteira aberta!
Por que o Brasil não diz com todas as letras, grafita em todas as porteiras: “Nós vamos retirar o gado da Amazônia. Nós erramos. Ainda dá tempo. Mundo, ajude-nos com recursos e apoio”?
Mas não. O assunto não está em pauta. Para muita gente que vive dessa mesquinhez que a pecuária dá, o melhor é ficar como está, sem dados claros, porque afinal ela é uma reserva de valor, ela legitima a ocupação de terras públicas, ela pouco paga impostos...
A pecuária bovina extensiva ocupa um quarto do Brasil. São 210 milhões de cabeças de gado (mais de um terço na Amazônia) pastando sobre o filé do país – 200 milhões de hectares. A pecuária é responsável por mais de três quartos das queimadas anuais. São milhões de hectares. O governo não consegue calcular essa área. Sessenta milhões? Oitenta milhões de hectares anuais queimados? Ninguém ousa calcular. Isso causaria um tremendo impacto nas contas do Brasil, seria difícil de explicar.
Veja o Marajó, maior do que cinco estados brasileiros, a área mais pobre da Amazônia, com IDH igual ao do Subsaara. Ninguém sabe qual é o rebanho de búfalos ou de bois. Ninguém sabe quem é dono do quê. Há muito roubo de gado, gado clandestino, abate clandestino, informalidade em tudo...
Como então apresentar números confiáveis se não há uma base de dados? E mais, como relacionar a emissão de carbono (e de metano e outros gases) da Amazônia e das atividades agropecuárias ao próprio consumo do brasileiro? Isso porque, no caso da carne de boi, historicamente, mais de 90% se destina ao consumo interno. E, quanto à agricultura, boa parte também é para o mercado interno.
Imaginem se Copenhague fosse no Brasil. As monótonas delegações sendo recebidas com grandes churrascadas nesses palácios do desperdício – as esfumaçadas churrascarias –, símbolo do desperdício, o símbolo do Brasil, a eterna e falsa abundância. E, lá fora, os meninos da porteira, aguardando as sobras e o troco, flanelando os carrões das delegações a estacionarem...
E agora o Brasil quer exportar carne bovina para a China, aumentar sua penetração no Oriente Médio e em outros mercados. O Brasil especializa-se em exportar commodities para ditaduras e contenta-se em receber uns caraminguás. A conta sai cara, mas o Brasil não apresenta a fatura, não tem nota fiscal para a floresta amazônica calcinada, a água doce (de que esses países não dispõem), o baixo salário dos peões de gado...
Êta Brasil do menino da porteira, esperando o trocado para quem passar com sua boiada! Só que o final da história é triste. Trágico! O boi atropelou e passou por cima do menino. O Brasil ocupado pela pecuária é triste – milhões de hectares vazios de emprego, altamente concentradores de renda e gerando um passivo social e ambiental fenomenal. Esta é a história do Brasil. É a nossa tragédia conhecida e anunciada. A história que o Brasil não quer contar. Pior, da qual, incrivelmente, não quer se desapegar.
Como é possível discutir sustentabilidade e responsabilidade social neste curral cercado de pastos por todos os lados? Como é possível falar em diminuir o desmatamento e as queimadas se estes são a força motriz da pecuária bovina extensiva? Como é possível apresentar números confiáveis de controle sobre gases que contribuem para o aquecimento global com a porteira escancarada?
O que fazer então para gerar empregos, renda, segurança alimentar e justiça social na Amazônia? Certamente não será aumentando o rebanho, aumentando a quantidade de pastos. A Nova Economia deveria se lastrear nas florestas plantadas, nas florestas de alimentos, nas florestas energéticas, nos ambientes naturais manejados com cuidado, na cobrança pelos serviços ambientais, no turismo sustentável, na inclusão das populações até agora marginalizadas. A Nova Economia deveria taxar a ineficiência, taxar a pecuária bovina, remodelar os assentamentos rurais – todos quadros desoladores, abundantes em pastos de poucos bois.
Brasil, desce da porteira! Mostra tua cara! Vê se toma tento e leva essa boiada pra longe da Amazônia. Vê se cresce, menino. Será possível repensar o Brasil, o Brasil sem boi e sem fome?
O Brasil é o menino da porteira. A boiada passa, ele recebe uns trocados. Na próxima boiada, o boiadeiro fica sabendo que o boi passou em cima do menino. Será possível mudar esta história para um final mais feliz? O final que nós queremos, e não esta conversa para boi dormir?
* João Meirelles Filho, mora em Belém (PA), dirige o Instituto Peabiru e é autor do Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro, 2007) e de Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros, 2009).
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