
Todas as Comunidades dispõem dos cenários
e ambientes sociais favoráveis ao desenvolvimento
de seu capital social? A partir dessa indagação
a venezuelana Charo Méndez, socióloga
pela Universidade Católica Andrés Bello
e especialista em projetos sociais enriqueceu o seminário
com o tema: "Redes democráticas
e prosperidade social" e acredita que através
de mais redes sociais há mais capacitação
social. Pare e Pense...
Aceitei o
convite por duas razões fundamentais: a primeira
é que me chamou muito a atenção
o nome do evento "Pare Pense". E em segundo
lugar porque estava muito curiosa na Venezuela com as
tantas referências acadêmicas que havia
lido sobre Porto Alegre e ficava me perguntando o que
tem o Rio Grande do Sul? Principalmente porque tem maior
visibilidade pública, ganha mais por investirem
em políticas públicas em seus governos
locais e de alguma maneira pude vir averiguar o que
aqui tem de diferente.
Neste seminário creio que surgiram alguns elementos
sobre capital social como o tema da responsabilidade
e compromisso individual. Apareceu o tema da solidariedade,
a cooperação e confiança, surgiram
temas como a necessidade das estruturas em redes, a
necessidade de uma participação entre
o governo e a sociedade civil. E depois vamos ver o
esquema da solidariedade assim como o elemento fundamental
do capital social: a comunicação.
Eu quero falar de redes, quero discutir isso com vocês
porque estamos convencidos de que as pessoas estão
mais enredadas e nelas há mais capital social.
Em primeiro lugar redes sociais. Em algum momento das
análises sociológicas a categoria grupos
chegou a ser insuficiente, não é somente
a participação em um grupo e foi aí
que se averiguou que havia algo distinto em conceitos
de grupos que teriam maior interação e
viram de alguma maneira a utilização do
termo rede. Que não é novo.
Rede é suporte, é compromisso, informação...
Tudo isso pode ser rede.
São espaços onde se ouvem propostas, onde
se tem consenso, tudo pode ser rede. É a agregação
de interesses comuns, uma e outra pessoa vai chegando
por ter algum interesse em comum e faz com que comece
a se unir, se reunir. São relações,
vínculos, é interação.
Quando chego a duas amigas e peço para que me
digam quantos números de telefones tem em sua
agenda. É muito distinto que uma pessoa tenha
em uma agenda 10 números de outra que tem 200.
A pessoa que tem 200 tem mais vínculos, tem mais
interação, tem com certeza uma maior quantidade
de rede que pertence, que podem ser familiares, de amizades,
relações de trabalho, seu clube, seu grupo
religioso...
Quando alguém pergunta: com quantas pessoas tu
te relacionas? Provavelmente a resposta de uma pessoa
completamente excluída é uma rede de solidariedade
mínima, que está ao redor de sua favela,
sua casinha... Essa pessoa tem um nível de reclusão
muito alta e por quê? Porque se vê claramente
que ela não está suficientemente enredada.
Eu quero nomear quais os elementos fundamentais que
vemos em termos da rede:
Nodos - Pessoas, organizações,
algo tem que se enredar.
Vínculos - Não há
redes sem vínculos.
Densidade - É completamente
diferente uma rede de 3 ou 4 pessoas de uma rede de
4.000 pessoas.
Conteúdo - Para se reunir é
preciso um conteúdo. É um afeto, uma relação
de amizade. É a relação que vou
ter com um professor. Ou seja, todo o vínculo
tem que ter um conteúdo. Esse conteúdo
é o que me permite entender porque estou em vários
grupos.
Intensidade - Eu posso ter uma agenda
telefônica com muitos números de amigos,
mas alguns eu não ligo há quase três
anos, então resulta que não estou tão
enredada. Tem que haver intensidade.
Freqüência - Dentro da rede
com que freqüência eu me vinculo com elas.
E por que as pessoas estão em rede? Por suporte.
Pergunte a um cubano que chega a Miami. É certo
que um cubano que chega a Miami sem falar inglês
e sem nenhum suporte é recebido por uma rede
de imigrantes de seu país. O recebem em suas
casas, dão dicas para trabalhar, são solidários
e com certeza isso define se a pessoa pode se dar melhor.
Muitas pessoas se enredam por suporte, para ter vínculos.
Todo o ser humano necessita estar vinculado e isso acorre
graças às redes de amizades.
Por que nos enredamos? Por interação.
Celina e Renato, por exemplo, com certeza pertencem
a uma rede de acadêmicos do Brasil que necessitam
de uma interação no final dos seus trabalhos,
do que estão produzindo, os congressos...
Isso também é uma necessidade que o ser
humano tem para enredar-se. Pertencer. Isso talvez explique
porque as pessoas se enredam pelo tema religioso. Cooperação.
As redes voluntárias são as que mais explicam
porque as pessoas se articulam, reúnem-se para
fazer voluntariado. Por cooperação. Porque
tem necessidade de fazer algo pelo outro e conseqüentemente
começam a associar-se, articular-se ou enredar-se
porque necessitam cooperar. As pessoas por diferentes
motivos estão em rede.
Por que as organizações estão em
rede? Reúnem-se para coordenar e articular. Para
duplicar as forças, devemos estar coordenados,
devemos saber o que os outros estão fazendo,
se necessita desse espaço de convivência.
Por reconhecimento, capacitação, visibilidade...
por elementos fundamentais que as organizações
justificam sua participação em rede.
Se, por exemplo, somos 100 organizações
de direitos humanos no país poderemos ter mais
reconhecimento e visibilidade. Por isso me enredo. Por
elevação de demandas coletivas. Na união
está a força.
Intercâmbio de informação e aprendizagens,
não só as redes virtuais são as
redes sociais, há muitos tipos de redes sociais.
Muitas organizações, no caso da Venezuela,
que estão em diferentes setores do país,
dizem, por exemplo: nessa rede estou porque consigo
uma informação que antes teria que ir
à capital para obter, agora tenho no município,
é uma maneira imediata de saber das coisas. Se
estiver na rede, qualquer informação recebo
imediatamente, e, conseqüentemente, ganho tempo.
Há intercâmbio de informação
e aprendizagem.
Aumentar o impacto da ação individual
é outra das razões fundamentais.
Características das redes sociais:
Confiança. Sem confiança as pessoas não
se enredam.
Compromisso.
Auto-organização
Autonomia
Participação
Interdependência
Diversidade
Horizontalidade
Estas são para mim as características
desejáveis. A aposta das redes sociais começa
por aqui.
Critérios de inclusão em redes
sociais:
Áreas de ação e aspectos temáticos.
Grupos com identidades culturais.
Âmbitos e alcances geográficos.
Natureza organizativa.
Conceitos sobre redes sociais:
Articulação, suporte e intercâmbio
de informação, conhecimentos e recursos.
Espaços de construção de tecidos
sociais que buscam o bem coletivo.
Uma plataforma de participação cidadã
no público.
É uma agrupação de organizações
por interesses comuns.
No fundo o conceito de rede não pode ser único
porque a maneira das pessoas se articularem nas organizações
são muito diferentes uma das outras, então
qualquer desses conceitos pode ser o conceito de rede
social.
Redes cidadãs:
Redes vigilantes ao Estado. Redes de serviços
sociais no Estado X redes de serviços sociais
desde o Estado.
Controle social e melhoria cidadã X consulta
pública e prestação de contas.
Em termos gerais tanto o Estado faz a rede cidadã
ou ao contrário.
Eu creio no direito fundamental: informação.
Cada vez que eu reviso uma rede cidadã sinto
que é a informação que define o
tipo de relação.
Redes tecido social:
De compromisso mútuo (família, amizades,
religião, imigrantes, social, vítimas...).
Às vezes nos enredamos para receber um benefício
pessoal.
De interesse público (saúde, educação,
âmbito social) seja por compromisso, convicção,
solidariedade. Aceita enredar-se com outras pessoas,
devido a algo que vai beneficiá-lo ou não.
Direito fundamental: associação.
Redes de sociedade civil:
Redes de ONGs ou redes de movimentos sociais.
Vida associativa na esfera pública para influir,
melhorar ou enfrentar o Estado. É a sua relação
com o Estado.
Direito fundamental: participação
Comparação entre redes de tecidos sociais
e sociedade civil:
Em redes de tecidos sociais, elas fazem parte para articulação,
intercâmbio, comunicação, capacitação,
mobilização de recursos.
Quando estamos falando em redes de sociedade civil os
objetos são para fora: voz, visibilidade, melhoria,
defesa pública.
Por isso precisamos primeiro entender de que tipo de
rede estamos falando.
Dilemas fundamentais:
Interesses comuns X particulares
Seletividade X legitimidade
Participação X representação
Endógeno X Exógeno
Reflexões finais:
Mais redes sociais, mais capacitação social.
Cidadania ativa, tecido social e sociedade civil são
redes.
Participar em redes é um ato político.
Plataformas que garantem os direitos individuais, humanos
e sociais.
Espaço para superar problemas sociais e contribuição
do Terceiro Setor.
Tem que se articular, porque na união está
a força.
Redes nacionais, redes locais e supranacionais todas
tem importância. Mas temos que começar
pelas locais.
O elemento fundamental das redes é a confiança.
Muito obrigada. |