Jorge Gerdau Johannpeter

No painel "Mobilizando o Capital Social na empresa", Jorge Gerdau Johannpeter, advogado e empresário gaúcho que preside o Conselho de Administração e o Comitê Executivo do Grupo Gerdau, e também o Movimento Brasil Competitivo, além de coordenar a Ação Empresarial Brasileira, enfatizou o compromisso das lideranças da iniciativa privada na mobilização do capital social como estratégia para o desenvolvimento sustentado neste novo século. Para ele, "investir no capital social, na educação, capacitação e crescimento do ser humano gera benefícios econômicos". Pare e Pense...

Vou dividir a minha apresentação em duas partes. Numa eu vou colocar um pouco a minha concepção do aspecto gerencial administrativo estrutural, que eu acho importante para qualquer atividade, principalmente para atividades sociais nas quais temos de aperfeiçoar muito o conceito de gestão. E trazendo através disso a importância de ter eficiência gerencial no primeiro, segundo e terceiro setor. E assim, na segunda parte eu vou falar mais de uma forma um pouco desorganizada, porque vou expressar uma série de idéias. Resolvi colocá-las, porque eu não tive tempo de organizar de uma forma estruturada, o que levaria dias. Talvez eu faça isso quando me aposentar e escreva sobre essa matéria. Eu preferi colocá-la para que eu pudesse transmitir a vocês um pouco a dimensão do meu sentimento em relação à importância do conceito de capital social. Essa palavra, embora hoje surgida através desse desenvolvimento de análise dos processos sociais, eu pessoalmente estou encantado pela importância que o debate pode nos levar no sentido de todos nós criarmos uma consciência.

Através do investimento e do crescimento do capital social, nós poderemos encontrar caminhos que realmente significarão evolução no processo de desenvolvimento. Ela é abrangente e vocês podem estar certos que uma empresa de alto sucesso vai ter um alto índice de capital social. Ninguém constrói uma empresa sem uma relação de confiança dentro da sua estrutura ou com sua clientela. Isso quando se percebe dentro de uma visão mais ampla e social, eu diria que o mesmo aspecto estenderia para qualquer tipo de atividade.
A solidariedade existia antes da existência do Estado. Então isso viria num processo histórico, eu depois vou falar um pouco sobre esse ponto, de que a humanidade, nos seus primórdios, estabeleceu princípios de solidariedade, seja por emoção ou por necessidade.
Segundo ponto que é extremamente interessante é de que ao delegarmos maciçamente via impostos, entendemos de repente que é responsabilidade do Estado. Nós estamos pagando 40% do PIB em impostos, e pensamos que isso nos libera, nos desonera da nossa responsabilidade social. Mas na realidade, nós continuamos com os problemas sociais e com essa responsabilidade. Hoje graças à comunicação, nós somos invadidos na nossa casa com os problemas sociais. Na realidade nós fazemos uma terceirização e tentamos nos liberar da solidariedade e da responsabilidade. Mas não conseguimos resolver, pagamos um custo enorme e continuamos responsáveis.
O terceiro ponto é a importância do primeiro setor versus o custo do terceiro setor. Somente através do esforço comunitário, trabalhando de uma forma solidária, nós vamos poder resolver grande parte dos problemas sociais.

Eu tenho dezenas de exemplos, mostrando que o terceiro setor consegue fazer qualquer ação social com o custo de um terço a um quinto do custo dos que nós fazemos via Estado. Então eu coloco aqui pra vocês uma visão não somente sob o aspecto emocional, espiritual, mas dentro de uma visão pragmática, da importância de que pelo trabalho da sociedade, da solidariedade, da construção do capital social nós podemos encontrar caminhos de desenvolvimento. A concepção que nós vemos e a eficiência gerencial através das tecnologias de gestão, nos levam ao desenvolvimento sustentável (econômico, social e mental). Ela tem de atingir os três setores, o primeiro, o segundo e o terceiro setor, governo e empresas, para construir competitividade de capital social. Através desse caminho, nós podermos construir uma qualidade de vida para a população.
É extremamente importante dentro dessas palestras de hoje, ter essa visão ampla do que significa construção de capital social. Conecto-me imediatamente de que a construção do capital social se vincula num processo de construção extremamente organizado, mas que passa pelo fator de relações de confiança. Vocês vão ver que qualquer construção de unidade que se faça, da menor empresa a uma enorme, sempre se passa por três fatores: liderança, conhecimento e metodologia de organização, para que o conhecimento funcione. Normalmente nós podemos ter uma liderança razoável, temos conhecimento, mas não temos metodologia de organização, e aí o conhecimento e liderança se perdem. Conseqüentemente, colocar no terceiro setor competência gerencial é uma peça chave para que posamos construir capital social. Lógico que exige outros fatores, até diria que há um aspecto cultural, mas o próprio processo precisa de eficiência gerencial.
O que é liderança? É a habilidade de influenciar pessoas para trabalhar entusiasticamente visando atingir aos objetivos e identificá-los como para sendo de bem comum. É muito importante discutirmos esse processo e conscientizar a importância de qualquer processo de desenvolvimento na relação com a liderança e cada vez mais dentro do debate sobre o que é liderança é futura, vocês vão perceber que a liderança histórica funcionava por um conceito de liberdade e a futura cada vez mais se conduz pelo líder servidor. Isso é um tema que infelizmente a humanidade está tirando em termos pragmáticos e gerenciais, mas se vocês analisarem as grandes histórias de lideranças podem estar certos que os grandes líderes formam os que melhor souberam se por a disposição do seu povo, da sua organização e da sua entidade. Hoje o tema está sendo construído de uma forma científica, mas eu chamo a atenção para esse ponto porque ele está diretamente relacionado com esse ponto da construção do capital social. A liderança para que ajude na construção do capital social não pode ser pela autoridade, e sim para o sentido de construir uma evolução daquela entidade, sociedade ou comunidade. Sobre o papel da liderança, nós temos que separar bem que dirigente é o que dirige, e o líder orienta e estimula o potencial máximo do ser humano. É extremamente importante que nós todos venhamos raciocinar para saber que tipo de líder nós devemos prestigiar, apoiar, e qual o desenvolvimento de liderança devemos ter.

Gostaria de salientar que numa sociedade moderna, vou tomar como exemplo a empresa Siderúrgica Riograndense, de Sapucaia, onde trabalham umas 1.500 pessoas, deve-se ter no mínimo 300 líderes lá dentro. É extremamente interessante, porque pensamos que devemos ter um líder ou meia dúzia. À medida que se constrói o capital social numa dimensão maior, não existe mais comando autoritário e sim equipes treinadas, mobilizadas, capacitadas buscando a sua participação na construção da evolução. Aí a liderança não é autoritária e sim de apoio para que as equipes tenham condições de construir. Isso é uma revolução social que está acontecendo nas empresas mais modernas e que venham atingir de forma significativa.
A construção da liderança moderna, que é a mobilização social, acontece pelo terceiro setor. Isso é um fenômeno que normalmente não se fala, mas é interessante dentro de uma visão holística, como esses processos se conectam e se tornam um todo. No meu entender esse é um fenômeno precioso que está acontecendo e que nós infelizmente estamos detectando isso gradativamente. Entendo que ao se debater capital social estamos tentando construir uma revolução comportamental em todos nós. Então o papel da liderança é com os colaboradores. Nós saímos historicamente com um conceito primário de mão-de-obra. Para mim essa palavra é proibida, quando entro numa empresa não quero mão-de-obra, e sim o coração e inteligência.

Na seqüência, vamos colocar mão-de-obra, ser pensante e cidadão humano. Eu pergunto a qualquer um de vocês: querem ter ao seu lado um ser humano trabalhando ou uma mão-de-obra? Então toda sociedade deve trabalhar a avaliação do aprimoramento, nossas equipes em qualquer uma das instituições (primeiro, segundo ou terceiro setor) cabem cada vez mais para se construir ser pensante, cidadão e finalmente ser humano. Está absolutamente consciente daquilo que faz com responsabilidade numa relação limpa e consciente do seu trabalho na sociedade. Tem uma coisa utópica aí, mas nós temos que trabalhar nesse sentido porque esse é o caminho de maximização, de eficiência e produtividade. O que eu preciso é de competências e habilidades. Algumas delas que uma liderança humanística desenvolve: solidariedade, atitude participativa, confiança, responsabilidade, engajamento, espírito empreendedor, criatividade e novas lideranças.
Historicamente a imagem do empreededorismo e do empreendedor se vinculava muito ao empresário. A sociedade moderna precisa de empreededorismo em todas as atividades seja primeiro, segundo ou terceiro setor. Inovação em qualquer instituição está diretamente ligada a capacidade e inovação, que na realidade a pessoa tem que ter atitude de empreender para fazer as evoluções. Eu posso ter a solidariedade por cada um desses fatores, quando eu palestro em relação à atividade da Maria Elena nos Parceiros Voluntários eu digo: é importante que haja voluntariado, e eu não quero saber porquê.

Quando enfrentamos os dilemas das injustiças sociais e sentimos atingidos pelo DNA histórico do tempo da caverna, eu diria o seguinte: aceito voluntariado e atitude dentro de um egoísmo construtivo, porque a pessoa inteligentemente diz " ou eu invisto na construção da minha sociedade, na do capital social ou minha vida fica cada vez pior." Então dentro de uma visão pragmática, isso eu justifico. Eu não faço por egoísmo construtivo, raciocino por egoísmo construtivo, mas meu trabalho voluntário não é motivado por isso. Os líderes devem ter consciência que a sua maior missão é trabalhar na construção do capital social. Isso é uma coisa extremamente importante. Para potencializar qualquer um dos três capitais, natural, financeiro e humano, só através do capital social. Todos nós temos uma semente importante vinculada a uma dimensão humanística, comportamental de todos nós, mas eu diria o seguinte: investir no capital social significa potencializar o capital humano e o financeiro e talvez o mais importante: respeitar o capital natural, no âmbito do meio ambiente. Realmente através do capital social é que nós vamos potencializar todos os outros. É extremamente interessante quando fui desenvolvendo sobre essa visão histórica da qualificação dos capitais e de repente percebi, com uma visão absolutamente pragmática, que o resultado de um investimento no capital social traz a potencialização dos outros capitais. Vou colocar uma frase do sociólogo colombiano José Bernardo Toro, que é um pouco sobre o que o professor colocou aqui. A responsabilidade está em como cada um de nós age. "Toda ordem social é criada por nós. O agir ou não agir de cada um contribui para a formação e consolidação da ordem em que vivemos." É uma frase de grande peso, eu convido todos a ter isso em nossas mentes. A passividade e omissão de não trabalhar na construção do capital social é inaceitável.

Gostaria de transmitir algumas coisas para vocês: Investir no capital social, educação e capacitação do ser humano gera benefício econômico. Se vocês tomarem como exemplo onde existem esses fenômenos no norte da Itália, que são cadeias produtivas de micros empresários que se juntam para atingir um objetivo comum. No fundo essas pessoas têm o mais elevado capital social de um confiar no outro e juntos construir um negócio de competitividade internacional. Essa idéia de desenvolvimento hoje está se trabalhando no Brasil, mas é importante que pensemos o que o capital social pode significar, não só na área social.
Sobre o cenário histórico da solidariedade, o homem das cavernas, como eu já falei, existe. Então hoje nós somos onerados cada vez mais por esses desajustes. O crescimento em comum, porque o material faz o homem pensar que é um semi Deus, é um fenômeno interessante que se aceitou nos últimos 200 anos desde a Revolução Industrial. Pela inteligência e capacidade do ser humano se começou a desenvolver um nível de autoconfiança que perdeu um pouco o vínculo com a sua espiritualidade, mas eu admito que está retornando, porque na dimensão das coisas, a humildade da nossa correta dimensão vem para o lugar. Eu acho que os furacões americanos nos ajudam a nos colocar na posição da nossa pequeneza.

A globalização econômica X a globalização social: a globalização econômica é um fenômeno em função do processo da tecnologia, da eficiência dos transportes. O maior fator é a redução do custo de transportes. Hoje, seja por avião, navios, se possibilita fazer transporte automático. A globalização econômica é uma realidade. Sem falar no que a informática influi na informação. Mas eu digo que a globalização econômica não pode existir sem se trabalhar na social. É um trabalho lento, podendo durar centenas de anos, mas nós temos que ter a visão de que as desigualdades sociais não são aceitáveis. Eu não gosto muito quando o Brasil faz discurso na ONU, falando da fome. Acho que só tem direito de dar discurso e dizer o que tem de ser feito quando a gente faz em casa. Eu diria: vamos arrumar nossa porcaria em casa para depois dizer o que o mundo tem de fazer. Existe outra frase, de rabino Bernardo Clisper, que disse uma frase que me machuca permanentemente: "a fome do Brasil é um problema ético". Isso quem tem um mínimo de responsabilidade social diria que não tem cabimento que nos dias de hoje tenhamos fome no Brasil. É pura bagunça e incompetência gerencial. A consciência de que dá para resolver isso está nas nossas mãos. Fome no Brasil é um dos maiores símbolos da negação do capital social no nosso País. Aprimorar os indivíduos significa aprimorar o coletivo, logo o crescimento da cidadania nos traz o crescimento do processo global.
Outra observação: Atitude social tem de ser individual, para construirmos coletivamente. Segundo ponto, a melhoria tem de ser individual, é um processo educativo. A caminhada é lenta. A soma desses aprimoramentos individuais é que nos vai levar a evolução global. A miséria mundial é colocada em nossos lares diariamente. O resíduo do nosso DNA de solidariedade nos leva a agir até como um instinto de sobrevivência. Hoje, quando ligamos a televisão somos bombardeados, ela gera em nós uma inquietação, isso é um ponto positivo. Se a humanidade deseja melhorar sua qualidade de vida deve melhorar seu capital social. As sociedades prósperas são as que detêm maior capital social. Daí vem a importância de aproveitarmos um dia como hoje para aprender e refletir aos nossos amigos e parentes o que significa investir em capital social. A construção de uma cadeia de capital social se fundamenta em atitudes empreendedoras desenvolvidas na comunidade, no espírito das pessoas. Vou trazer dois exemplos que vi semana passada, quando tivemos uma apresentação do conselho da Parceiros Voluntários. As tribos, uma organização de um projeto fantástico de mobilização de crianças, resolveram trabalhar na área ambiental, uma das opções das tribos. Aí vocês vêem novamente a atitude empreendedora.

Eu propus aos supermercados que nas sacolas plásticas fizessem cores diferentes para que o lixo de casa recebesse a distinção. Vocês vejam uma idéia simples: aquele supermercado dobrou as suas vendas em relação à comunidade. Aí está a inteligência da parceria social. A comunidade construiu em toda a cidade o projeto de fazer as sacolas. É a idéia de empreededorismo e capital social de mobilização.
Quero mostrar a idéia de um livro que está surgindo com a experiência de um processo de cursos de culinária, de aprimoramento e utilização de comida, etc. Foram pequenas iniciativas. Uma pessoa começou a dar os cursos, aí o pessoal aprendeu e criou-se um livro. O empreededorismo que existe latente nos seres humanos é decisivo, e assim é que se constrói o capital social. Os líderes devem ter a consciência de que a sua maior missão é trabalhar na ampliação do capital social.

Eu gostaria que todos responsáveis pensassem como aprimorar o capital social. Deveríamos fazer essa pergunta todos os dias. Através disso, nós vamos ter as construções das cadeias para melhoria dos problemas sociais. O verdadeiro líder é o líder servidor, consciente que seu verdadeiro papel é o de servir a sua comunidade e a seus liderados. Essa é justamente a evolução do conceito do líder do futuro. A sociedade vai exigir cada vez mais que o líder seja servidor. Trabalhando cada vez mais com o espírito de servir, estamos construindo o capital social.

Resumo dos pontos: trabalhar os valores internos faz despertar nas pessoas seu verdadeiro valor, o que torna mais ativa e socialmente transformador o mundo a seu redor. Eu encerro aqui com essas palavras. Ao estarmos trabalhando nessa revolução comportamental da construção do capital social, esse é o caminho para que possamos sonhar com o rompimento que precisamos ter. A minha convicção de que essa evolução da percepção da construção do capital social, é extremamente fantástica, porque ela é benéfica ao nosso emocional, seja por emoção pura ou pela espiritualidade da pessoa. Mas ela tem um aspecto vantajoso do modo da sociedade se organizar e nossa atitude em relação aos governos, devem ser cada vez mais exigentes. Desenvolver o conceito de tolerância zero da concessão de não agir, ao conceito de respeito às coisas corretas e integridade no sentido de que se possa construir nesse País um verdadeiro capital social para nosso desenvolvimento. Obrigado.