Márcio Simeone Henriques

"Da gênese do vínculo ao nascimento das causas: comunicação e mobilização" foi o tema do painel de Márcio Simeone Henriques, Professor e Doutorando na UFMG; coordenador do grupo de pesquisa Mobiliza; consultor em projetos sociais. A chave para um processo de mobilização social é um processo comunicativo. É hora de nos questionarmos: "Qual a teia que une as redes solidárias, como o ser humano consolida seus vínculos de interdependência e solidariedade?". Pare e Pense...

A informação acaba percorrendo caminhos insondáveis e por esse motivo que eu acabei chegando até este evento. Tem horas em que eu olho a minha agenda telefônica e vejo a quantidade de redes das quais a gente é levado a participar exatamente porque a gente pensa sobre essas redes. É por causa disso que hoje acabarei acrescentando mais números a minha agenda telefônica. Isso é um detalhe importante que eu trago hoje para pensarmos um pouco sobre a comunicação social. Qual a participação da comunicação, quais as funções que ela cumpre nesse processo de mobilização social. É sempre uma dificuldade quando falamos isso, porque às vezes a expectativa que a gente tem sobre a comunicação e o papel que é mais visível dela, que é a divulgação. Então quando a gente pensa em determinados processos de mobilização, nós, como profissionais de comunicação e pesquisadores dessa área, chama a curiosidade quando determinados projetos mobilizadores, determinadas iniciativas de associativismo, sempre procuram um profissional de comunicação para falar que não temos uma boa comunicação. O que precisamos fazer para se comunicar? Às vezes quando um interesse é depositado aí, é um interesse de boa divulgação, de fazer propaganda, porque a nossa sociedade exige isso evidentemente. Exige visibilidade, não é um projeto social que não tenha que se tornar visível, não tenha que se projetar num espaço público de maneira que ele possa garantir sua existência como legítima para interferir nesse espaço público politicamente. E é o que se deseja. É tudo que nós estamos falando aqui hoje a respeito de capital social. No entanto, o que chamou mais a atenção nesses últimos anos tem sido a participação nesse processo e como podemos compreender. Por um motivo muito simples que vou introduzir rapidamente. Começamos a trabalhar pesquisando na Universidade de Minas Gerais, com curiosidades muito simples, porque se formos ver o que mobilizava as pessoas numa época pré-moderna era a simples presença de chamar as pessoas a fim de trocar seus problemas e buscar uma forma de interferir coletivamente. Então os mecanismos de comunicação eram muito limitados. Hoje não podemos falar mais isso, porque o que nos convoca a participar é um conjunto de meios de comunicação social, a mídia. Mas não é só isso. Nós temos tantos instrumentos de comunicação para passar que temos que saber combiná-los. Temos que saber por que meios a comunicação vai passar. Eu dou exemplos sempre muito simples que costumamos falar. Nas comunidades muito pequenas ainda vemos vestígios disso, mas historicamente há uns anos, as pessoas se convocavam com coisas muito simples. O sino da igreja era uma forma de chamar as pessoas a se reunir e deliberar sobre um assunto público ou de interesse coletivo. Hoje não estamos mais falando disso, porque todos vocês que trabalham em projetos voluntários sabem que num momento de convocar as pessoas nós precisamos muito mais do que tocar um sino. De onde vem a causa e como se estabelecer, do ponto de vista da comunicação, que ela possa ser de interesse de outros? Essa é a nossa curiosidade.

Pegando o próprio conceito de capital social nós vamos perceber que o conceito de capital social seja qual for, sempre carrega um grau de potencialidade. Tem a ver com o aumento da nossa potência cívica, portanto tem caráter de virtualidade e pode vir a ser em potencial e depende de algumas coisas: de capacidade específica, de mobilizar determinados recursos por parte de um grupo e pela disponibilidade de propor redes de relações sociais. Assim já é possível tirarmos uma rápida conclusão. O potencial e essa virtualidade que se define como capital social está diretamente relacionada à capacidade de mobilização do sujeito na comunidade. Se formos pensar, primeiro, segundo e terceiro setores mobilizam. Todos eles têm um discurso, que é o seguinte: "você, profissional de comunicação, venha nos ajudar a mobilizar." Queremos mobilizar as pessoas. O governo mobiliza, se é democrático e precisa de instâncias para auxiliar a sua deliberação, ele deve mobilizar as pessoas. As empresas mobilizam, já que a filosofia da responsabilidade social exige isso. E principalmente os cidadãos, por si mesmos, que se mobilizam e constituem instâncias de participação. As redes se entrecruzam e a agente está sempre participando de mais de uma. Existem vários formatos possíveis de mobilização, porque essas redes se compõem de modos diferentes. Você tem hoje conselhos, comitês, projetos sociais, ONGs, projetos de voluntariado. Cada um mobiliza por determinadas causas, por ora semelhantes por ora diferentes. Isso é um problema da nossa sociedade que traz uma complexidade de ação coletiva e política enorme. Podemos dizer que a mobilização social é a reunião de sujeitos que definem objetivos e compartilham sentimentos, conhecimentos e responsabilidades para a transformação de uma dada realidade, movida por um acordo em relação a uma determinada causa de interesse público. Primeiro tem de ter um objetivo e deve ter um alcance público em prol de seu interesse. Deve ter um compartilhamento de conhecimentos, sentimentos e responsabilidades. As pessoas se movem por essas três coisas. O conceito de José Bernardo Toro nos diz que a mobilização social é um processo de convocação de vontades para uma mudança de realidade através de propósitos comuns estabelecidos em consenso. Ali ele coloca que a comunicação é um fator indispensável para a existência de um processo mobilizador, portanto podemos concluir que processo de mobilização social é comunicativo. Portanto, estamos falando que qualquer mobilização só existirá a partir do uso desse recurso que nós chamamos de comunicação.

A comunicação num projeto de mobilização pode ser abordada por três funções principais: vincular, coletivizar e identificar. A gente sabe que a potência de um projeto mobilizador está na geração de vínculos cada vez mais fortes, onde as pessoas compartilham valores de tal forma que não conseguem mais dissociar qualquer vínculo.
Existe um vínculo ideal que é aquele que a gente pode conquistar, cujo nome é co-responsabilidade. Quando falamos que as pessoas devem estar totalmente envolvidas com aquele projeto mobilizador e com aquela causa, falamos de um sentimento que é o vínculo da co-responsabilidade. Isso acontece quando os indivíduos se sentem tão envolvidos com o problema e compartilham tanto a probabilidade pela solução, que eles entendem sua participação como sendo uma parte essencial no todo. Se todo o vínculo co-responsável só se dá por uma formação coletiva que se agrega onde todos se sentem comprometidos, a segunda função da comunicação que é a coletivização, promove a força coletiva dessa causa social. Eu não posso passar de uma causa individual para uma causa mais abrangente se ela não for devidamente comunicada, não digo divulgada. O que faz com que uma pessoa vá aderir à causa de um grupo? É um processo de coletivização, às vezes esse é um dos maiores desafios, porque muitos dos problemas não reconhecemos como sendo problema nosso. O processo de coletivização só se cumpre quando as percepções e ações se deslocam todo o tempo do interesse individual para o interesse coletivo. Todos nós temos nossos interesses individuais. Em algum momento eles devem fazer a interface, interagir com os interesses coletivos, temos que promover acordos de interesse. Quando os problemas são percebidos e tratados como sendo de todos e quando se permite visualizar a união de todos em prol de causas comuns. O José Bernardo Toro diz que a coletivização trata do compartilhamento, mais abrangente possível de todas as informações relacionadas com o movimento, mas tem de gerar nos indivíduos a certeza de que aquilo que eles fazem no seu campo de atuação está sendo feito por outros com os mesmos propósitos e sentidos. Os valores são comuns, não são ações isoladas que estão sendo informadas, são ações conectadas. Observe como é importante isso do ponto de vista de uma rede: a rede só se formará quando a nossa sensação for de ações conectadas. A terceira função é a da identificação, que é uma função muito visível, porque hoje, se criamos um projeto, temos de identificá-lo, e gerar para aquele projeto mobilizador a partir de determinados símbolos e de determinados valores que estão inscritos naquela cultura, naquele grupo que se mobiliza, algo que se possa ser comunicado às outras pessoas de maneira que elas reconheçam. Que rede é essa? Porque é diferente daquele que luta pelas mesmas causas? Porque hoje nós vemos que nas redes cada um entra com a sua identidade de projeto, que vai gerar coisas comuns e não comuns. Nas redes nós vamos ter parceiros diferentes, cada um com a sua estratégia, gerando estrategicamente através de instrumentos de comunicação a sua identificação. Só para citar um fator de comunicação que a gente mais observa, a logomarca. Isso é feito conhecendo e entendendo o contexto daquela realidade. A questão cultural, cujas diferenças o professor Renato nos colocou, o quanto elas vão provocar identificações diferentes com os projetos mobilizadores respectivos e formas diferentes de mobilizar por causa dessa identidade.

É importante perceber que existe um elemento que poderíamos acrescentar na apresentação do Gerdau. Quando fala nas competências para o capital social a competência comunicativa, tanto dos agentes que se mobilizam quanto do público em geral significa uma competência para aprendizagem coletiva que é da ordem da comunicação. A gente não aprende coletivamente sem uma competência para se comunicar. Uma competência para produção contínua de informações qualificadas, ou seja, que são importantes para o sujeito saber agir. Caso contrário, como esperamos que ele faça alguma coisa? Quando se fala nas condições de cooperação que são dadas todas só se efetivarão através de processos relacionais e comunicativos. Por esse motivo eu concluiria dizendo para vocês que o capital social, além de ser um recurso moral é um recurso comunicacional. Não sei se estou sendo pretensioso. Mas por quê? Porque dele depende a organização deste recurso, a comunicação, da qual nós dispomos, não vou dizer que a gente dispõe disso simetricamente. As competências, às vezes são desiguais, bem como os acessos aos meios. Mas é esse recurso que permite coordenar ações visando a cooperação e o entendimento mútuo. E isso precisa ser construído com os instrumentos de que dispomos para comunicar e com uma competência para comunicar. Então depende das capacidades de comunicação dos atores sociais, das suas habilidades na construção de um relacionamento cooperativo que é muito complexo e dinâmico. Esta é a nossa contribuição e eu deixaria para vocês. Muito obrigado.