
"Capital social e participação cívica"
foi o tema do painel de Maria Celina Soares D'Araujo,
Ph.D. em Ciência Política junto ao Center
for Latin América Studies, Flórida. Pesquisadora
do Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil, da Fundação
Getúlio Vargas, ela acredita que o
capital social é a única forma de capital
em que quanto mais gastamos mais temos, e a solução
para vivermos em uma sociedade cívica, forte e
engajada está em um governo responsável.
Pare e Pense...
Segundo um grande
economista, capital social é a única forma
de capital que quando mais gastamos mais temos, quanto
mais se usa mais ele cresce. Praticar capital social
significa praticar confiança, solidariedade,
reciprocidade. Isso só aumenta na medida em que
praticamos.
Por que esse tema surgiu com tanta força nos
últimos anos? Capital social é uma terminologia
nova para um conceito antigo, que é o de participação
cívica, de cidadania.
Enumerei alguns dos fatores que nos levaram a valorizar
tanto o capital social. A primeira é a desigualdade.
O mundo está mais desigual, nas duas últimas
décadas com exceção da Índia
e da China. Existe desigualdade e pobreza, que também
está aumentando. As sociedades estão mais
ricas, produzem mais, mas há uma concentração
muito grande de pessoas pobres. Podem existir sociedades
pobres, mas que as pessoas tenham uma vida humana e
digna. E podemos ter uma sociedade rica como a brasileira
em que uma parcela da sociedade está totalmente
excluída.
Outro fator é sobre o futuro das democracias.
O mundo nunca esteve tão democrático,
isso é muito bom, mas por outro lado as pessoas
estão mais individualistas, as antigas formas
de participação, associações,
sindicatos, estão tendo menos valor para as pessoas.
Um outro fator que nos leva a essa reflexão é
a crise fiscal do Estado nos anos 70, foi quase que
geral, na Europa, Estados Unidos e América Latina
também. Ela levou a uma reflexão muito
grande sobre o papel do Estado e sobre o neoliberalismo.
Houve um setor da inteligência e do mercado que
enfatizou muito a idéia de que o Estado deveria
se retirar da vida econômica. Foi a idéia
de um Estado mínimo.
Há uma nova percepção de justiça.
O mundo está mais injusto, não somos mais
capazes de promover eqüidade, as pessoas têm
um sentimento de injustiça mais aguçado.
As pessoas se impressionam mais com o que está
acontecendo e isso leva a toda essa reflexão.
Nos anos 90, o Banco Mundial passou a usar o termo capital
social como um critério para avaliar projetos
de desenvolvimento. Define quatro tipos de capital:
o natural (água, florestas, etc.), o financeiro
(a riqueza imobiliária), o humano (nível
de insatisfação das pessoas) e introduziu
essa variável chamada capital social que é
a capacidade que as pessoas têm de cooperar, produzir
solidariedade, interagir com as instituições,
de produzir confiança. A última é
uma idéia básica quando se fala em capital
social, é muito importante inclusive na economia.
Vários estudos mostram que as sociedades que
são capazes de confiar para além da família
são as sociedades que desenvolveram as grandes
corporações econômicas. Veja Japão
e Estados Unidos: a confiança na sociedade vai
além da família e as grandes corporações
internacionais são desses países. Sociedade
como a chinesa ou a brasileira que se desconfia de todo
mundo, se fecha na família e isso se reflete
nas próprias empresas. Acabam sendo familiares
e com isso elas não se expandem, não se
internacionalizam, porque as pessoas têm medo,
do sócio... Não temos essa prática
de cooperar de maneira tão forte como gostaríamos.
Quando uma sociedade sabe cooperar, tem um recurso fundamental
pra produzir desenvolvimento econômico, que significa
comida, emprego, renda para as pessoas.
Outro ponto importante que a literatura tem levantado
é que para se ter capital social fomentado é
importante que os projetos de desenvolvimento e culturais
levem em conta a organização daquela sociedade.
Porque quando fizemos um projeto para um município,
uma comunidade, que levemos em conta como a sociedade
se organiza, quais são as relações,
as redes sociais. E que os projetos de desenvolvimento,
se somem, a idéia que o projeto de desenvolvimento
seja voltado para casos particulares. Uma idéia
de que temos um molde para fazer projetos de desenvolvimento,
ou seja, a cultura é um grande aliado do desenvolvimento.
O Banco Mundial diz que capital social e cultura são
a chave do desenvolvimento no sentido de que esses projetos
devem valorizar o que essas sociedades têm em
termos de auto-estima. Um dos exemplos interessantes
de casos bem sucedidos é no Peru, a Vila de El
Salvador, que se transformou em município. É
uma região de grande pobreza, mas que conseguiu
fazer ali uma vila, com casas decentes, com água.
O que se fez ali foi trabalhar com essa população,
com equipes multidisciplinares e ver que valores essa
sociedade partilha, o que enfatiza, o que é prioritário
pra ela. Aí se descobriu que as tradições
Incas eram muito importantes, que eles fossem nessas
direções, valorizar a tradição
indígena, a idéia do chefe, do patriarca,
do ancião. Usaram essa base cultural indígena
e a partir daí fizeram uma forma de organização
dessa comunidade imensa, 200 mil pessoas habitam, se
fez uma organização de escolas, de parques,
de lazer, de bibliotecas, com a gestão da comunidade,
mas que seja inteligível para ela.
Na Guatemala, um país também muito pobre,
com história muito dura de ditaduras, de repressão,
também há um exemplo. Nessas situações
quem mais sofre são os mais pobres, no caso,
as minorias étnicas, no sentido sociológico.
Então vários projetos foram voltados para
essa comunidade e os que mais deram certo foram os que
se voltaram para essa questão de que vamos levar
uma forma de desenvolvimento para essas pessoas, mas
uma forma que seja inteligível para elas.
Para quem não sabe, quando entramos na literatura
que avalia casos de construção de capital
social, Porto Alegre e Ceará são dois
casos obrigatoriamente presentes na literatura internacional.
Porto Alegre por causa do orçamento participativo
e Ceará por causa do combate a mortalidade infantil,
que é realmente uma coisa fabulosa. Foi um trabalho
feito numa rede de parcerias do Estado, a Secretária
de Saúde do Governo do Estado, com prefeituras,
ONGs e pessoas que necessariamente eram voluntários
individuais. A mortalidade infantil ainda é uma
das mais altas do Brasil, apesar de ter diminuído.
Esta é uma política coordenada, de distribuição
de soro para crianças, muito fácil de
fazer. Se fez uma rede de assistentes de saúde,
que correu o Estado e foi veiculando esta idéia
que as pessoas aprenderam a cuidar das crianças
de uma forma simples e barata. É também
um caso obrigatório na literatura internacional,
porque é uma sociedade pobre, mas capaz de produzir
essa articulação e de salvar vidas.
O que eu quero chamar a atenção é
para o fato de que os governos são responsáveis.
Quando se fala em capital social, o governo deve fazer
sua parte, no sentido de discutir suas políticas
com a sociedade, convencer da necessidade de determinadas
políticas. Ou seja, eu não partilho da
idéia de que capital social significa sociedade
forte e, portanto, um Estado mais ausente. Acho que
capital social significa uma sociedade mais forte e
um governo responsável. O governo deve dar o
exemplo. Acho que as grandes crises em que vivemos hoje
é que os governos estão distantes das
pessoas. As campanhas políticas viraram máquinas
de fazer dinheiro, não importa o que se diz na
campanha, porque o que se faz é outra coisa.
O estelionato eleitoral é muito sério
para perda de confiança nas sociedades.
As pessoas se sentem enganadas. Isso tem um resultado
muito negativo na sociedade. Confiar como se o exemplo
que vem de cima é esse? Eu quero uma sociedade
cívica, forte e engajada. Isso só vai
existir se o governo for eficiente no sentido de ser
responsável. Não vamos idealizar uma sociedade
que resolva suas coisas sozinhas. Capital social tem
a ver com bom governo. Obrigada.
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