
O conferencista Renato Raul Boschi, Ph.D.
em Ciência Política e pesquisador do Instituto
Universitário de Pesquisas do RJ, refletiu sobre
o tema "Quando o capital
social faz diferença", destacando que
a geração de capital social está
baseada em uma intuição e que é preciso
apostar acerca das possíveis conseqüências
da ação social. A única maneira de
saber é fazendo. Pare e Pense...
Eu vou falar sobre o desafio de construção
de capital social. O título dessa apresentação
é o de produzir uma reflexão de quando
o capital social faz diferença. Eu tive uma experiência
como acadêmico e como participante do Banco Mundial,
de analisar diferentes experiências municipais.
A questão com a qual eu me defronto sempre é:
porque determinadas experiências dão certo
e outras não? É possível enumerar
os fatores que estão presentes no sucesso de
algumas delas.
Evidentemente quando se fala em experiências municipais
se trata de um contexto onde a gestão municipal
é extremamente importante para se explicar as
diferenças. Quanto mais se diminui a abrangência
do contexto que está se pensando, a idéia
de construir capital social, tanto mais vai haver a
incidência de certos fatores na produção
de ação coletiva na questão da
produção de identidades, de solidariedade,
de confiança, que é muito mais fácil
de se obter em pequenos grupos.
Vou começar problematizando a geração
de capital social. Numa segunda parte, vou tratar de
comparar experiências focalizando alguns dos casos
que eu investiguei academicamente ou com o Banco Mundial.
Vou salientar três casos: Belo Horizonte, Minas
Gerais e Ipatinga. As duas primeiras foram objetos de
estudo internacional sobre a criação de
governos no âmbito municipal, que se chamava GURI
(Global Urban Researt Iniciative), do qual eu participei
no final dos anos 90, e depois essa experiência
em Ipatinga.
É muito difícil se pensar numa teoria
da mudança institucional ou social com a identificação
de processos sociais. Na realidade, isso é um
problema central nas Ciências Sociais, porque
a ação social é baseada em dois
aspectos. No da interação, que significa
agir junto. Então toda a ação social
é interdependente, qualquer cálculo individual
implica uma consideração acerca do cálculo
dos outros atores sociais. Então ela é
referida aos outros atores sociais. O que eu faço
vai depender do que fazem os outros indivíduos
e das metas que querem alcançar.
Duas características da ação social
é a interdependência da ação
dos outros indivíduos, sendo assim ela é
fundamentalmente estratégica em relação
aos atores individuais. A partir de determinados resultados
se atribui motivação como maximizar os
seus interesses e atividades individuais para atingir
determinadas metas. Ela parte dos resultados e insere
as motivações a partir dos resultados.
A mesma coisa para tantas outras teorias que tratam
de hipotetizar acerca dos resultados práticos
de determinada ação social. Se hipotetiza,
nessa vertente, as diversas possibilidades de trajetórias
específicas do conjunto de atores que produziram
um determinado resultado. A geração de
capital social vai depender da prática política
e da identificação que os atores fazem
na suposição de que aqueles fatores vão
ser capazes de gerar capital social. Portanto a geração
de capital social é uma aposta e como toda a
aposta você tem de pagar pra ver. Você não
sabe exatamente quais são os possíveis
resultados, pode ter a intuição ou sistematização
dos fatores que são responsáveis pelo
sucesso, mas você não tem certeza. A única
maneira de saber é fazendo.
Geração de capital social está
baseada numa aposta acerca das possíveis conseqüências
da ação social. Como a Celina salientou,
experiência de gestão aqui em Porto Alegre
tem sido colocada como esse exemplo bem sucedido de
governança municipal. Mas é muito pouco
presente na literatura. Há cerca de três
anos eu fiz um levantamento sobre referências
acadêmicas e cheguei a 23 referências de
estudo sobre o caso de Porto Alegre. Nesses estudos
é muito pouco salientado o papel que o capital
social, em trajetória prévia, foi ou é
responsável pelo sucesso desta experiência
de gestão municipal.
Vocês têm um contexto aqui no sul, com uma
sociedade mais homogênea, mais igualitária,
que é mais favorável à geração
de capital social. Este contexto é uma condição
para o sucesso das experiências de gestão
municipal das quais Porto Alegre é tomada sempre
como referência internacional. Mas, infelizmente
num certo sentido, Porto Alegre não é
o Brasil. Essa é a grande questão, porque
no Brasil nós temos mais de cinco mil municípios
com uma variedade enorme de situações,
de tamanho, de densidade demográfica, de características
locais em relação às suas elites
políticas. Suas culturas também variam
muito de local para local, o que torna difícil
de generalizar certos modelos de parceria público-privada
na administração e na gestão de
políticas públicas.
Por exemplo, a instalação de Conselhos,
que hoje são características de centralização
de políticas com a instauração
de Conselhos locais que exigem a aparição
da população local e muitas vezes não
existe sequer o plano social naquele contexto para implementar
com sucesso a idéia de parcerias público-privadas.
Temos uma variação enorme de contextos
brasileiros que autoriza em muitos casos o fato de que
o mesmo tipo de instituição é o
mesmo tipo de gestão pública, a mesma
tentativa de implantar essa gestão pública
em alguns casos favorecem o desenvolvimento local e
a participação, gerando capital social.
Essas experiências são bem sucedidas. Em
outros locais é exatamente o contrário,
você fortalece as oligarquias, o clientelismo,
modalidades tradicionais e dominação política.
Em função dessa característica
do capital social e de que todo o instrumental analítico
da economia está fundado na idéia de recursos
escassos, a dificuldade de se reproduzir cenários
de rendimentos crescem ou de ciclos virtuosos é
extremamente forte. Os ciclos de rendimentos crescentes
dizem respeito justamente à criação
de capital social, como você consegue estabelecer
uma sinergia em termos de um conjunto de fatores que
aumentam com a sua utilização. Isso que
se chama rendimento crescente ou ciclos virtuosos. Há
um ramo da economia que está tratando de fazer
isso para pensar um raciocínio probabilístico
que são bem sucedidos num caso e replicá-los
em outros. Você tem que fazer um levantamento
estatístico para fazer um modelo onde essas variáveis
positivas entrariam como componentes probabilísticos.
Mas é pouco usado ainda.
A dificuldade de se reproduzir rendimentos crescentes
tem a ver primeiro com o fato de o capital social ser
muito dependente de trajetórias. As trajetórias
pregressas podem ser condizentes a práticas ou
que levam a rendimentos crescentes ou a possibilidade
de se aprisionar a trajetórias perversas. O subdesenvolvimento
tem a ver com a persistência no erro. Tem certos
atores que se beneficiam através da corrupção,
da apropriação indevida de rendas. Esses
indivíduos ficam interessados na manutenção
do status quo e certas tendências são aprisionadas
historicamente levando a uma condição
fatalística de subdesenvolvimento. Um caso como
o Brasil é referido uma realidade territorial
histórica e cultural. Portanto, existe a possibilidade
de se variar os elementos de subculturas locais. A relação
com a cultura é importante e é uma das
dificuldades a serem enfrentadas na geração
de capital social, portanto, diz respeito a como mudar
subculturas que são muito resistentes à
mudança, quando essas geram obstáculo
de geração de capital social.
Vou salientar quatro dimensões importantes que
estão envolvidas na geração do
capital social, a cultura cívica, desigualdade
estrutural, produção de ação
coletiva e relações entre sociedade civil
e governo local. O associativismo é um ingrediente
fundamental na produção de capital social,
mas por vezes tem de se enfatizar a quantidade da vida
associativa. E não é apenas isso que importa,
mas a qualidade. Por exemplo, como as pessoas estão
envolvidas dentro daquelas associações
em que participam, a freqüência das reuniões,
a qualidade do face a face. Um tipo de solidariedade,
de comunicação e de compartilhamento de
informações que ocorrem no âmbito
das associações.
Outro elemento é a criação de redes
de relações entre diferentes esferas associativas.
O que ocorre numa sociedade que tem cultura cívica
e que é densamente organizada: ter lealdades
cruzadas. Eu participo de uma associação
aqui que é uma sociedade de interesses, mas também
participo de uma associação voluntária
que é de beneficência num outro contexto.
De outro lado, o estabelecimento de redes entre esferas
associativas é outro aspecto fundamental. A geração
de cultura cívica está relacionada ao
estabelecimento de vínculos horizontais que eliminam
relações assimétricas de cunho
clientelista. O clientelismo tem a ver com a apropriação
do bem público e utilização do
bem público como moeda de troca para o domínio
político. Relações hierárquicas
e desiguais. A manutenção dessas relações
é extremamente detrimental à proliferação
do capital social. O capital social também é
extremamente sensível a desigualdades estruturais.
Floresce mais em ambientes sociais homogêneos
e a própria geração de capital
social tem a ver, portanto, com a possibilidade de se
diminuir a desigualdade. É um certo paradoxo,
mas é isso que está envolvido na produção
de capital social. Práticas coletivas, que reproduzem
a desigualdade, tendem a não dar certo. Daí
a noção que é muito utilizada atualmente
quando se fala em modelo de gestão público-privadas,
geração de capital social, que é
de capacitar aqueles que estão menos capacitados
a participar da vida associativa ou se envolver em atividades
de parceria. Tem de se diminuir os da ação
coletiva, porque ela é muito mais custosa para
aqueles que têm menos recursos e para os quais
ela é mais central pra obter determinados bens
públicos. Por exemplo, as pessoas mais bem dotadas
de recursos econômicos e que moram nas áreas
mais favorecidas da cidade não têm de fazer
mutirão para ter saneamento. Esse custo da produção
de ação coletiva, geralmente é
exigido exatamente das populações que
tem menos recursos, que tem que promover a sua ação
coletiva para ter acesso a um bem público que
outras pessoas, sem nenhum esforço, têm.
Simplesmente porque moram em uma área melhor.
Há diferenciais em termos de desigualdade estrutural
que afetam a produção de capital social.
O problema fundamental é como obter cooperação.
Um dos dilemas da ação coletiva diz respeito
à centralidade da ação para os
atores e é inversamente proporcional aos recursos
de que esses atores dispõem para promovê-las.
É exatamente a noção de que quem
tem mais recursos para promover normalmente são
aqueles a quem cabe essa tarefa, essa carga para a promoção
da ação coletiva. Um outro aspecto que
é muito salientado na lógica da ação
coletiva diz respeito ao controle dos caroneiros, os
chamados free riders, na distribuição
ou acesso aos resultados da ação coletiva.
Isso significa que toda vez que se produz um bem público,
cujo consumo não envolve seu esforço em
produzi-lo, esses indivíduos não vão
se envolver em ação coletiva para produzir
aquele bem público. Ninguém vai se envolver
para produzir aquilo que obteria de qualquer forma,
sem esforço ou participação. Então
um dos elementos centrais no sucesso da geração
de capital social consiste em dar incentivos seletivos
para que aqueles indivíduos possam participar,
que tenham ganhos na participação. Que
ao mesmo tempo possam controlar a participação
nos ganhos, reservando para aqueles que efetivamente
participaram na produção do bem público.
Existe outra questão, a relação
entre lideranças e bases, daí a importância
dos empresários organizacionais na produção
da ação coletiva.
Quando se produz capital social e ação
coletiva através da participação
recoloca-se a necessidade de representação.
Então há sempre que se pensar em mecanismos
políticos na obtenção da cooperação
e na produção da ação coletiva.
Por fim, o outro elemento diz respeito à sociedade
civil forte e a presença de governos fortes.
O estabelecimento de canais de interação
entre governo e sociedade depende da representatividade
democrática. Não existe sociedade civil
forte sem governos fortes. O governo é alicerce
que detém o poder de coagir os indivíduos
à promoção da ação
coletiva, os estimulam numa escala local mais ampla
por ter recursos de sanções.
Certamente quando se fala em sociedade civil não
se pensa apenas na maximização de interesses
como um motor de participação do envolvimento
em ação coletiva, mas também no
fato de que são importantes identidades e solidariedades.
São aspectos da teoria da ação
social freqüentemente relegados a segundo plano.
Mas é fortemente um fator determinante dos bons
resultados em termos de geração.
Agora vou comparar experiências de quando o capital
social faz diferença. Estou salientando em cada
caso aquilo que prevaleceu como mais importante. Em
Belo Horizonte, um dos elementos para o sucesso de práticas
de parcerias público-privadas tem a ver com a
dinâmica do governo local e a experiência
de associativismo na área. Essa foi a primeira
cidade planejada do Brasil, tem toda uma ênfase
no aspecto voluntarista que se traduziu na criação
de diversas associações. Belo Horizonte
tem uma densidade de vida associativa bastante alta
em comparação com outros contextos brasileiros.
No que diz respeito ao governo local, um aspecto que
prevaleceu às parcerias foi a de centralização
administrativa, que foi consolidada num teor altamente
democrático. A existência de coordenação
e interação prévias entre esferas
da administração municipal. Comparando-se
Rio com Minas você verá que existia um
controle e interação de diferentes esferas
na administração uma sobre as outras,
assim impedindo com que recursos fossem apropriados
de maneira clientelística pelos representantes
do poder.
A próxima experiência, de Salvador, contrário
em relação à administração
municipal, tem um cerco clientelista apropriado pelo
senador Antônio Carlos Magalhães, que detém
os meios de comunicação de massa e organiza
as bases de apoio em modos clientelistas. Então
esse cerco clientelista, que é a captura da máquina
administrativa local com centralização,
desfavoreceu o sucesso de parcerias público-privadas
em Salvador. Lado a isso é um contexto com fortes
hierarquias e desigualdades sociais.
Foi muito interessante a experiência em Salvador,
porque chama a atenção para a presença
da subcultura local até onde não imaginamos
que certos aspectos dela podem favorecer ou representar
um furo nesse cerco clientelista, favorecendo a criação
de capital social. A experiência mais bem sucedida
de gestão público-privada e de geração
de capital social em Salvador é a atividade do
Carnaval, que tem tudo a ver com a cultura local. Quer
coisa mais baiana que o Carnaval? Com base nessa subcultura,
foi criado um conselho do Carnaval, que faz uma articulação
excelente e se tornou um modelo de administração
de uma atividade comunitária que foi exportada
para outros locais do Brasil. Tem "carná-não-sei-das-quantas",
com consultoria de gestão do Carnaval de Salvador
em outros locais do Brasil. É uma atividade que
as pessoas participam, que existem conselhos, ligações
com todos os grupos de cultura local (afoxé,
capoeira) e tudo que vocês podem imaginar na produção
dessa atividade coletiva.
Já o caso de Ipatinga, cuja característica
é a sinergia entre governo local, empresa e produção
de ação coletiva. Ipatinga é uma
cidade em que a relação entre comunidade
e empresa é umbilical, quase não há
limites entre a Usiminas e a comunidade da cidade. No
centro da cidade tinha uma área totalmente deteriorada,
a rua principal tinha enchente, era área de favela,
prostituição, tráfico de drogas.
Afetava, inclusive, a vida do comércio local
porque era do lado do centro comercial. Então
a idéia era fazer as obras de saneamento para
as quais o governo financiou, mas para isso precisava
da remoção dessa área de favela.
O projeto foi remover aquelas pessoas. Mas os interesses
delas eram contrários dos interesses dos comerciantes.
Como você produz ação coletiva com
interesses contrários? Os comerciantes queriam
tirar a população favelada que por sua
vez não queria sair. Então, deu-se incentivo
para construção de casa própria
num bairro afastado daquele local. Porém, apenas
esse incentivo não funcionaria. O grande sucesso
da experiência de Ipatinga foi exatamente o envolvimento
dos comerciantes locais com o controle da prefeitura
em atividades associativas, nas quais eram difundidas
as informações. O mutirão foi feito
assim: construíram as casas próprias,
os comerciantes ficaram satisfeitos, a área central
foi urbanizada e todo mundo ganhou sua casa própria.
Mas para isso havia um controle rígido da participação;
só teve acesso ao benefício quem de fato
participou. É um caso onde a promoção
da ação coletiva estava baseada nos incentivos
e no controle dos caroneiros.
Conclusões: Acho que para geração
das ações sociais, é importante
em primeiro lugar mapear os fatores restritivos e os
que potencializam o capital social em cada contexto.
Segundo lugar, estimular a criação de
redes entre esferas associativas no plano local. Terceiro,
aumentar a qualidade da vida associativa através
de incentivos seletivos da participação
baseados em identidades e solidariedades e não
apenas em interesse. Diminuir o custo da participação
para os setores sociais menos dotados de recursos de
organização, se não diminui o interesse
desses indivíduos na participação
coletiva. Reforçar o ambiente de trabalho e a
vida comunitária. Intensificar os vínculos
horizontais entre a associação e o governo
local, com participação de informação.
É uma coisa difícil, mas não devemos
desanimar. Não há como avaliar produção
de capital social num curto prazo. Você tem de
apostar que vai acontecer. Portanto quanto mais capital
social, quanto mais você aposta e mais faz, poderá
obter resultados a longo prazo.
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